Por: Thaís C. Miranda e Adriana Fontes

O fluxo de um laboratório clínico pode ser distribuído em três fases: pré-analítica, analítica e pós-analítica. A etapa pré-analítica, corresponde a todos os fatores e procedimentos praticados antes da análise propriamente dita da amostra (fase analítica). Enquanto que a fase pós-analítica é referente ao laudo e à interpretação dos resultados.

Os erros laboratoriais apresentam incidência de, aproximadamente, 15% na fase analítica e 20% na pós-analítica, concentrando-se majoritariamente na fase pré-analítica. Tais erros são decorrentes dos processos de requisição de exames, orientação e identificação do paciente, coleta da amostra, transporte, armazenamento e processamento para análise. De forma a minimizar a ocorrência de erros durante a fase pré-analítica, o Programa de Acreditação de Laboratórios Clínicos (PALC) e a RDC 302/2005 da ANVISA, recomendam os cuidados necessários a serem adotados durante cada um dos processos.

Inicialmente, no que concerne ao preparo do paciente, é recomendado que as instruções fornecidas pelo laboratório sobre a coleta de materiais e amostras sejam objetivas e de fácil compreensão e, preferencialmente, dadas verbalmente. Entretanto, quando forem necessárias instruções escritas, essas devem ser redigidas em linguagem acessível. Cabe também ao laboratório, realizar a identificação do paciente durante o processo de coleta, sendo recomendado constar no mínimo dois indicadores do paciente, como nome completo e data de nascimento, por exemplo, evitando assim a troca de identidade.

É estimado que o processo de coleta de amostras é responsável por cerca de 46% a 68% dos erros na fase pré-analítica, aos quais estão associados dois fatores determinantes. O primeiro, diz respeito a erros por parte dos pacientes no cumprimento das orientações de preparo fornecidas pelo laboratório clínico, seguido por erros atribuídos aos profissionais envolvidos desde a triagem dos pacientes, ao processo de coleta do material biológico. De modo a evitar tais erros, os laboratórios devem padronizar os procedimentos de antissepsia, tempo de garroteamento, homogeneização da amostra colhida com anticoagulante e o uso de EPI’s pelos profissionais flebotomistas.

 

O PALC recomenda que o transporte e armazenamento das amostras primárias devem ser realizados em recipientes isotérmicos, higienizáveis e impermeáveis, de forma a garantir a estabilidade do material até a realização da análise. O transporte deve ser monitorado pelo laboratório de origem de modo que o tempo de trânsito, desde o momento da coleta até a análise da amostra, seja reduzido ao mínimo, visto que podem ocorrer variações nas medições de parâmetros como hematócrito e volume corpuscular médio em amostras colhidas em tempos superiores a 2 horas.

Após a chegada das amostras ao laboratório responsável pela análise, inicia-se a etapa de processamento e de julgamento da sua qualidade, que tem como objetivo determinar possíveis interferências nos métodos analíticos. Sendo assim, amostras que apresentem hemólise, lipemia ou icterícia, por exemplo, deverão ser descartadas e solicitada uma recoleta, salvo em casos específicos que deverão constar em observação no laudo para avaliação posterior de um clínico.

As decisões médicas são tomadas, em sua maioria, baseadas nos resultados de exames clínicos e, por isso, erros laboratoriais podem levar a diagnósticos mais demorados ou equivocados e resultar em tratamentos inadequados dos pacientes. Com isso, evidencia-se a importância de um fluxo laboratorial de qualidade, garantindo a confiabilidade das análises.

 

 

Referências:

 

ANDRIOLO, A., et al. Gestão da Fase Pré-Analítica: Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML); 2010.

 

ANDRIOLO, A., et al. Recomendações da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML): fatores pré-analíticos e interferentes em ensaios laboratoriais. Soc Bras Patol Clínica; Soc Bras Patol Clínica; 2018.

 

ANVISA. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Resolução da

diretoria colegiada – RDC Nº 302, de 13 de outubro de 2005.

 

LIMA-OLIVEIRA, G., et al. Pre-analytical phase management: a review of the procedures from patient preparation to laboratory analysis. Scandinavian Journal of Clinical and Laboratory Investigation, 77(3), 153–163, 2017.